O “AI SLOP” E O COLAPSO SENSORIAL: ENTRE A BIOLOGIA E O SIMULACRO

Esta semana, nas aulas do Curso Avançado de Documentário KINO-DOC, fizemos uma reflexão tendo como ponto de partida uma publicação nossa da semana passada sobre memes de “brain rot”, entendidos como sintoma de um colapso atencional e de uma exaustão sensorial (www.kino-doc.pt/memes-de-brain-rot). E chegámos ao debate sobre um novo fenómeno da paisagem digital: o “AI slop”.
Esta “lavadura (comida para porcos) produzida pela IA (inteligência artificial)”, numa tradução possível, designa um conteúdo gerado artificialmente em massa, na forma de imagens fixas ou em movimento, mas também textos, sem qualquer critério ou propósito humano, que é injectado nas redes sociais com o fim de alimentar o tráfego, com uma torrente informe de estímulos.
Importa reter como a ciência disseca a natureza destes estímulos, que operam em três frentes distintas de aniquilação da vontade. Temos assim uma autêntica anatomia da captura, com três graus de submissão. A saber:
O ENGODO DA DOPAMINA. No primeiro plano, o “slop” activa o mecanismo de recompensa do cérebro. Não se trata de prazer consumado, mas da promessa constante de algo novo. A dopamina, o neurotransmissor da antecipação, é disparada de forma intermitente, aprisionando a pessoa num ciclo de procura incessante, um movimento perpétuo onde o desejo é alimentado pela sua própria insatisfação.
A PARESTESIA DO ASMR. Para lá da cognição, a IA procura uma ressonância puramente somática. Ao recorrer a técnicas de ASMR (Resposta Sensorial Autónoma do Meridiano), o conteúdo procura desencadear a parestesia, um arrepio involuntário e relaxante que percorre o nosso corpo. Ao estetizar esta reacção física, o “slop” transmuta o sistema nervoso num mero receptor passivo. Aqui, a fruição intelectual é destronada por um reflexo biológico, onde o corpo sente para que o espírito não tenha de pensar.
O SEQUESTRO PELA PAREIDOLIA. Por fim, o arsenal completa-se com a exploração da nossa inclinação inata para encontrar ordem no caos. A pareidolia, a mesma faculdade que nos faz ver rostos na lua ou animais no desenho das nuvens, força-nos aqui a projectar padrões humanos onde existe apenas uma amálgama estatística disforme. O “slop” sequestra esta nossa sede de interpretação, mantendo o cérebro refém de um esforço constante de reconhecimento que, tragicamente, nunca se traduz em conhecimento.
DO LIXO DIGITAL AO DOMÍNIO POLÍTICO
Também com o “slop” o conteúdo deixa de ser uma expressão, mesmo que degradada, para se tornar apenas lixo digital optimizado pelo algoritmo. É, assim, um novo triunfo do simulacro, onde a inteligência não-biológica mimetiza a forma sem lhe conferir sentido, substituindo a demora da criação pela rapidez da geração.
No KINO-DOC cultivamos o cinema documental como lugar de uma relação de compromisso e presença com a própria matéria do real. O “slop” situa-se nos antípodas dessa filosofia. É antes o regime da imagem reduzida a ruído estatístico e à submissão atencional definitiva, onde o humano é dispensado tanto da autoria como da reflexão.
Para já, ainda é a acção humana que comanda o “slop”. Os donos destas fábricas digitais sofisticadíssimas continuam a ser humanos, colhendo os devidos dividendos de uma entropia que alimenta contas bancárias e controlo político. Um dos grandes beneficiados, senão o principal, é o extremismo político, que tira partido da falsificação da informação em marcha, através da imagem e do texto (as “fake news” com o “slop” atingem outro patamar), e dos fenómenos consequentes do vício, apatia e “apolitização”. Resta saber até quando o comando destas fábricas permanecerá humano, antes de passar definitivamente para os seus imateriais operários.
“AI slop” abordado por John Oliver, na HBO (o humor como antídoto para a entropia vai-nos salvando):



