SO LONG, MR. WISEMAN

Faleceu com 96 gloriosos anos, no passado dia 16, Frederick Wiseman, senhor de um dos mais rigorosos e penetrantes olhares do cinema documental.

Autor de uma obra vasta e única, devotada à observação paciente do mundo, das suas instituições e dos seus rituais silenciosos, Wiseman recusou o comentário fácil e a narração explicativa, preferindo a escuta atenta e a dilatação do tempo. Os seus filmes, construídos com discreta mestria, revelaram hospitais, escolas, tribunais, teatros e cidades como se fossem organismos vivos, expostos na sua fragilidade e na sua força. Nunca procurou o escândalo. Buscou antes a verdade quotidiana, essa matéria subtil que só a persistência alcança, desde o seu primeiro filme, o fulgurante “Titicut Follies” (1967), até ao último, “Menus-plaisirs, les Troisgros” (2023).

A sua monumental filmografia, onde o cinema encontrou uma das suas mais puras formas de consciência, permanecerá como um arquivo sensível do século XX e das primeiras duas décadas do século XXI, e uma obra de reflexão moral e estética sobre o acto de observar.

Num comunicado conjunto, a produtora Zipporah Films, fundada por Wiseman, e a sua família solicitaram que, em vez do envio de flores para as cerimónias fúnebres, se apoiassem livrarias independentes ou a PBS, o canal público de televisão onde grande parte da obra deste grande cineasta norte-americano encontrou abrigo e difusão.

Celebre-se o magnífico Frederick Wiseman vendo os seus filmes. São numerosos e muitos constituem o que melhor se fez no cinema do real nos últimos 60 anos.