YERVANT GIANIKIAN (1942-2026)

Faleceu há dias em Milão, aos 84 anos, o cineasta, arquitecto e artista visual italiano de origem arménia Yervant Gianikian. A sua obra, indissociável da colaboração com a sua companheira de vida e de criação, Angela Ricci Lucchi (1942–2018), marcou de forma indelével o cinema experimental e a arte contemporânea.

Nascido em Merano em 1942, Gianikian dedicou grande parte do seu trajecto artístico à reanálise e recontextualização de arquivos filmicos. Através do uso minucioso da “câmara analítica”, o duo desconstruiu imagens de rolos antigos, desacelerando o movimento e colorindo fotogramas para resgatar a memória histórica, as atrocidades do colonialismo e o impacto de eventos dramáticos como o genocídio arménio.

Com o seu desaparecimento, o mundo da arte perde um dos seus mais lúcidos e poéticos historiadores do olhar.

 

Em homenagem a Gianikian/Ricci Lucchi, convidamos ao visionamento do extraordinário “Oh! Uomo” (2004):

https://vkvideo.ru/video488159121_456239076

Este filme foi assim apresentado no programa KINO-DOC na Universidade do Porto “Corpo Transformado”:

«OH! UOMO, de Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi, é o terceiro de uma trilogia da dupla com base em arquivo de imagem em movimento da 1.ª Guerra Mundial. Neste título a arqueologia visual recriada pelas habituais trucagens dos autores (câmaras lentas, imagens em negativo, reenquadramentos, sobreposição de planos), e sonoramente dramatizada por peças de música erudita, incide sobre corpos violentados pelo belicismo. “Um catálogo anatómico da desconstrução e recomposição artificial do corpo humano” é assim apresentada a obra.

Após um prelúdio com “símbolos do totalitarismo”, como referido no próprio filme, a colagem de imagens brutais a que assistimos dá corpo a um díptico com crianças estupradas de várias formas pelo conflito armado e a “gueules cassées”, soldados mutilados, como aqueles que se viam medalhados no “Hôtel des Invalides” (impossível esquecer, nesse filme de Franju, o movimento de câmara do rosto desfigurado de um ex-soldado às medalhas que ostenta no peito). Mas nunca o cinema documental havia revelado tão frontalmente e sem pudor as marcas do horror marcial nos rostos, como que respondendo graficamente à pergunta de da Vinci inscrita na epígrafe “São estas coisas feitas por homens?”.»

https://kino-doc.pt/corpo-transformado-programa-kino-doc-de-40-filmes-na-universidade-do-porto