ROB REINER (1947-2025)

Triste notícia a da morte brutal do cineasta Rob Reiner e da sua esposa Michele, que lembra o homicídio do lendário documentarista Eduardo Coutinho pela mão do próprio filho.
Fica aqui o obituário e a homenagem ao realizador do “mockumentary” fundamental na história do cinema “This is Spinal Tap”, pelo poeta Diogo Vaz Pinto:
“ROB REINER. O FILHO QUE QUIS ROUBAR O NOME DO PAI
Como um crítico do The Times (Wesley Morris) assinalou por estes dias, os filmes de Rob Reiner dificilmente encontravam o seu lugar nas listas dos melhores das publicações de referência, mas se falhavam quanto a essas avaliações por vezes tão solenes e presunçosas, quando se tratava de enumerar escolhas pessoais, essas preferências algo inconfessáveis e que forneceram a narração íntima nalgum período mais vulnerável das nossas vidas, aí logo ganhavam destaque. Fitas como When Harry Met Sally… (1989), The Princess Bride (1987), Stand by Me (1986), This Is Spinal Tap (1984), A Few Good Men (1992) ou Misery (1990) continuam a providenciar um belo programa de sustento emocional e nostálgico para diferentes gerações, e a encontrar o seu lugar na coluna dorsal da programação de tantos canais televisivos, aproveitando para nos devolver a uma estrutura de valores mais clássicos e reconhecíveis, marcando um contraste que nos mostra o absurdo dos nossos dias. Esse contraste abrange a tão violenta e absurda morte do realizador e da mulher, numa notícia que mais parece saída de um desolador argumento, daqueles que ele próprio teria recusado filmar. O cineasta, ator, produtor, ativista e uma voz proeminente na denúncia do crescente autoritarismo e desmandos da administração Trump foi encontrado morto, com a mulher, Michele Reiner, na casa de Brentwood, em Los Angeles. Tinha 78 anos. A polícia de Los Angeles informou que foram mortos à facada na residência, na tarde de domingo. O chefe da polícia da cidade, Jim McDonnell, declarou na segunda-feira que o filho do casal, Nick Reiner, de 32 anos, tinha sido formalmente acusado de homicídio. Sabendo-se dos antecedentes deste filho, de um longo e conturbado percurso ligado à toxicodependência, tendo os pais feito de tudo para o apoiar na luta para se libertar do vício, e sabendo-se como o próprio Rob Reiner se debateu com a ausência e, ao mesmo tempo, com a sua idolatria pelo pai, o comediante Carl Reiner, esta é uma história que se fecha com um golpe seco, sem catarse, sem último plano de reconciliação. Nada mais contrário ao seu cinema, cedendo a uma crueldade mais coerente com o contexto político de uma América que ele passou a última década a combater. Assim, Donald Trump saltou sobre mais esta desgraça, aproveitando para se regozijar, atribuindo o trágico final de Reiner ao ódio que despertava nos demais com a sua «neurose Anti-Trump».
Reiner pertenceu àquela geração rara que não confundia inteligência com cinismo nem sucesso com oportunismo ou rendição. Filho de Carl Reiner, uma das mentes que ajudou a definir o clima desafiador da comédia televisiva do pós-guerra, e de Estelle Reiner, atriz e cantora de jazz, cresceu num ambiente onde a piada era uma forma de análise social e o humor uma arma de precisão. Mas esta herança não significou um passaporte fácil para o mundo do espetáculo, antes uma urgência de trilhar um caminho que lhe permitisse escapar à sombra monumental e omnipresente do pai, sem deixar de aprender com o seu exemplo e afinar os seus próprios instintos. O certo é que se o sucesso do pai não deixou de alimentar uma insegurança que Reiner nunca escondeu (recordava como aos oito anos explicou aos pais que queria mudar o seu nome, e se estes imaginavam que o motivo era para escapar à sombra de Carl, na verdade Rob disse que queria era ter o mesmo nome do pai, confundir-se o mais possível com ele), acabaria por se transformar no nervo secreto da sua obra, e muito provavelmente viria a firmar como sua absoluta prioridade a escolha de nunca deixar de estar presente na vida dos filhos, sendo bastante compreensivo em relação aos desaires daquele que acabaria por lhe dar a morte.
O público começou por conhecê-lo enquanto ator, com apenas 23 anos, como o «cabeça de abóbora», o genro liberal de Archie Bunker em All in the Family. A série de Norman Lear introduziu o conflito ideológico no centro da sitcom norte-americana, e Reiner, com o seu sarcasmo tenso e a sua postura de esquerda sem condescendência, tornou-se o alvo perfeito do ressentimento reaccionário do sogro. Ganhou dois Emmy, mas ganhou sobretudo uma educação prática sobre como o entretenimento pode tocar o nervo das convicções e ajudar a dissolver preconceitos.
Quando passou para a realização, fê-lo com uma audácia desconcertante. This Is Spinal Tap (1984) mostrou-se uma paródia pioneira que zombava de forma incisiva com os documentários sobre as lendas do rock, desferindo um golpe na cultura da grandiloquência, da auto-ilusão e da decadência prolongada como espetáculo. O filme teve um impacto decisivo e impôs-se como um antecedente de séries como The Office ou Parks and Recreation, desde logo porque nunca tratou os seus idiotas como meros palhaços: eram figuras certamente patéticas, mas perigosamente reconhecíveis.
O que se seguiu foi uma sequência absolutamente invejável de êxitos que redefiniram géneros inteiros sem parecerem exercícios de estilo. Stand by Me (1986) é um filme sobre a infância sem sentimentalismo, uma elegia seca à amizade masculina antes da deformação adulta, sendo o retrato mais honesto que Reiner fez da ferida paterna. The Princess Bride (1987), esse objeto anómalo que, mergulhando no reino da fantasia, não abre mão de um humor desconcertante, inteligente, cheio de ironia, mas sem estragar o efeito romântico.
Com When Harry Met Sally… (1989), escrito por Nora Ephron a partir das neuroses do próprio Reiner após o divórcio de Penny Marshall, a comédia romântica deixou de ser um desfile de equívocos e passou a ser um campo de batalha verbal. O filme entende que o desejo é discursivo, que o amor é feito de frases mal colocadas, e que a intimidade nasce menos do corpo do que da conversa. A famosa cena do orgasmo fingido não é um gag obsceno: é uma demolição elegante da masculinidade performativa, coroada pela frase assassina que Reiner ofereceu à sua mãe, Estelle, “I’ll have what she’s having”, uma das melhores punchlines numa comédia romântica.
Reiner tinha um talento formidável para ir desencantar enredos e preciosidades do espírito a escritores e guionistas que viriam a dar contributos inestimáveis à sétima arte. De William Goldman a Stephen King e Aaron Sorkin, o que lhe interessava era a desenvoltura do texto, a capacidade de captar momentos memoráveis desses que fixam o relevo e a textura do imaginário de cada geração. Misery (1990) e A Few Good Men (1992) mostram-no no seu ponto mais clássico, a trabalhar a tensão como engenharia e a moral como conflito dramático.
A fundação da Castle Rock Entertainment confirmou-o como figura estrutural da indústria, alguém capaz de produzir The Shawshank Redemption, The Green Mile ou Seinfeld sem precisar de assinar tudo com o próprio nome. Depois da venda da produtora, virou-se com mais intensidade para a política, sem a transformar em adereço moral. Lutou por políticas públicas de infância, pelo casamento entre pessoas do mesmo sexo, contra aquilo que via como a degradação institucional da democracia norte-americana. Não discursava por impulso: estudava, insistia, pressionava.
Os últimos anos foram desiguais no cinema, mas nunca irrelevantes. Continuou a aparecer como ator, a produzir, a intervir publicamente. Disse numa entrevista recente que o mais importante eram a mulher e os filhos. Uma frase simples, quase rude na sua banalidade, mas que nele soava menos a lugar-comum do que a um voto firme, uma profissão de fé. E é também isso o que distingue os seus filmes, aquela ética narrativa que garante que eles vão estar sempre lá como um abrigo. Reiner defendeu sempre que o cinema popular podia ser adulto, que a comédia devia romper com as divisões, ajudar a saltar fora das molduras ideológicas, e que o entretenimento não precisava de se envergonhar nem pedir desculpa pela sua eficácia. A sua morte brutal não encerra esta obra, e se lhe coubesse a ele, haveria ainda que lutar por aquele filho que está prestes a descobrir a pior forma de terror que há: conhecer as consequências dos seus atos sem ter lá o pai e a mãe que até ali lhe ampararam todos os golpes e frustrações.”



