EVOCAÇÃO DE JOSÉ BARAHONA (1969-2024)

Hoje escrevo na primeira pessoa. É com muita tristeza que soube da morte do meu querido amigo José Barahona, cineasta português que desapareceu cedo demais.

Foi com o Zé, com a sua companheira Carolina Dias e com a Maria Bartilotti Matos, que iniciei o projecto educativo de cinema As Formigas, que rodou dezenas de filmes com centenas de crianças em diversas escolas de Lisboa, e que foi a antecâmara do KINO-DOC, por o ter financiado e pela sua enriquecedora experimentação, crescentemente documental através dos anos, que culminou com a eliminação de qualquer guião, seguindo o princípio da história se desenvolver com e pelas crianças, algo que o Zé me ajudou a perceber. Foi com o Zé que aprendi muito do que sei de técnica audiovisual. Foi com o equipamento do Zé que filmávamos, o mesmo que ele utilizou um ano antes da criação d’As Formigas em “Buenos Aires Hora Zero”. Foi pelo Zé que consegui do produtor Luís Correia apoio para me aventurar pelo cinema. Foi pelo Zé que cheguei ao Abel Ribeiro Chaves, do Bazar do Vídeo/OPTEC Filmes, com quem ainda hoje colaboro. Foi com o Zé que trabalhei na rodagem da curta documental sobre o seu avô, “Evocação de Barahona Fernandes”, um dos seus filmes que mais admiro. Inesquecíveis as horas que passámos os dois sozinhos a filmar no Júlio de Matos para esse projecto e o plano OVNI do filme, quando o Zé “entra” numa fotografia com o avô e fala directamente para ele. Gravámos esse plano como filmávamos em “chroma key” muitas vezes os miúdos n’As Formigas. Foi com o Zé que tantas vezes conversei sobre cinema, entre outras paixões que partilhávamos, e escutei histórias fascinantes do seu percurso. Das aulas com o António Reis, quando era aluno na Escola de Cinema, às suas filmagens na Amazónia, passando pelos malabarismos de produção em Portugal e no Brasil, que ele e a Carolina inventavam para que os filmes acontecessem.

No KINO-DOC houve a participação de alunos na rodagem de “Estive em Lisboa e Lembrei de Você”, belíssimo filme injustamente maltratado pela crítica em Portugal. E “Nheengatu” foi focado no nosso curso avançado como exemplo modelar de documentário colaborativo. Estes filmes do Zé ou “Alma Clandestina” – filme densíssimo e comovente sobre o tema da resistência política, tão urgente actualmente, com um diálogo magistral entre documentário e recriação –, recolheram o entusiasmo dos nossos alunos e são obras para sempre inspiradoras, marcadas por “uma profunda humanidade”, como escreveu Nelson Pereira dos Santos a propósito de outro filme do meu amigo.

Um último abraço para o infinito, grande Zé, de alguém que nunca te esquecerá e que a ti tanto deve.

Jorge de Carvalho, KINO-DOC

 

As Formigas: Expressão Dramática e Cinema

https://www.facebook.com/formigaspedagogia

“Buenos Aires Hora Zero” (2004)

https://www.youtube.com/watch?v=xXD264T_emo

“Evocação de Barahona Fernandes” (excertos, 2007)

https://www.youtube.com/watch?v=mmgQc5Juub4

“Estive em Lisboa e Lembrei de Você” (trailer, 2015)

https://www.youtube.com/watch?v=9GIGOu9T52c

“Alma Clandestina” (2018)

https://www.facebook.com/watch/?v=692541098234830

“Nheengatu: a Língua da Amazónia” (2020)

https://www.rtp.pt/play/p9726/nheengatu-a-lingua-da-amazonia