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“PUNK PUNK” EM JULHO NA KISMIF

Produção do KINO-DOC, realizada por Jorge de Carvalho, “Punk Punk” faz parte do cartaz da KISMIF 2022, conferência internacional de subculturas a ocorrer em Julho no Porto. Será um filme composto por arquivo do fenómeno do punk, que será exibido no Rivoli a 12/7 e posteriormente, como videoinstalação, de 14 a 29/7 na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Sala de Reuniões II).

Convidado pela KISMIF a escrever sobre um filme que ainda não existe (apenas começará a editar em meados do presente mês), o realizador fabula um mapa de uma viagem que poderá ter outras estradas, mas que terá sempre o espírito destas palavras:

 

“Punk Punk” será um filme que interpretará uma cosmogonia dilatada do punk, que possivelmente irá da sociedade humana, libérrima e sem classes, da pré-história às vésperas dos palavrões proferidos pelos Sex Pistols em directo na TV à hora do chá, corolário da dinamite antropológica que viera da América na mala de Malcolm McLaren. Dentro desse espectro temporal poderão caber ritmos de tribos ancestrais, a insubmissão dos escravos liderados por Espártaco, histórias medievais de bruxas e bruxos, François Villon, os Levellers, a Revolução Francesa e outras revoluções e revoltas, Kleist, “A Desobediência Civil” de Thoreau, Rimbaud, anarquistas, dadás e surrealistas, a delinquência dos “street gangs”, Debord, letristas e situacionistas, a câmara livre de Brakhage, a fábrica de Warhol, os accionistas vienenses, a arte bruta de Dubuffet ou a música bruta dos proto-punks.

Postas as origens, não necessariamente por aquela ordem ou outra, seguir-se-á o punk rock e a miríade dos seus subúrbios musicais, de épocas diversas e um pouco por todo o mundo. Mas também a fúria niilista, a tenacidade ética, o inconformismo, a subversão, a criatividade visual e até o feminismo, que brotaram das vozes, guitarras e baterias do punk. Uma raiva que é uma energia, que vem do passado para altercar com o nosso presente formatado e assético. Pouco dado a rebeldias.

E porque irritam os constantes exercícios laudatórios dos documentários musicais, este filme mostrará a subcultura libertária e positiva, mas igualmente o seu avesso abjecto, o punk intolerante e fascista. E para além do branco e preto simbólico destes pólos, muito do que será visto terá diferentes tons cinza, amoralmente tratados.

A viagem será orientada pelas cartografias de Jon Savage, Greil Marcus, Lester Bangs, Richard Meltzer, Greg Shaw, John Lydon, que também aparecerá de muitas maneiras e feitios, inclusive com uma t-shirt trumpista (boa forma de questionar o “no future” que bradava), Helen McCookerybook, Richie Unterberger, Simon Reynolds, Ian Svenonius e outros. Mas, como filme que se quer punk, não seguirá nada nem ninguém.

Por cortes e recortes serão destruídos registos históricos e enciclopédias. Darão uma colagem em vídeo. Um “détournement” que tentará resgatar um espírito gregário já longínquo, com imagens e sons roubados sem vergonha.