ALEXANDER KLUGE (1932-2026)

Com o falecimento recente de Alexander Kluge, o cinema europeu perde um dos seus mais inquietos pensadores. Disso faz prova a sua vastíssima obra, que devemos ver para a seguir pensar. Para Kluge, o filme só se completa na mente do espectador, através da colisão de fragmentos aparentemente desconexos.
Figura central do Novo Cinema Alemão, notabilizado enquanto ficcionista, em obras como “Despedida de Ontem” (1966) ou “Os Artistas na Cúpula do Circo: Perplexos” (1968), Kluge desenvolveu um importante trabalho na área do documentário político na transição dos anos 1970 para os 80, com a criação já nessa última década da DCTP, produtora de variadíssimos documentários para o pequeno ecrã.
Como realizador usou o documentário de expressão ensaística como uma ferramenta para escavar camadas da História e da consciência colectiva. Escreveu também filosofia política, que não pode ser dissociada dos seus ensaios fílmicos, ganhando notoriedade o conceito de “espaço público da experiência”, que desenvolveu com o sociólogo Oskar Negt (uma resposta à “esfera pública” do igualmente recém-falecido Jürgen Habermas), em que se defende uma resistência à manipulação das consciências levada a cabo pelas grandes indústrias da comunicação e do lucro.
Em obras documentais marcadas por uma autêntica arqueologia do poder, já evidente no seu 1.º filme, a curta “Brutalidade em Pedra” (1961), no qual utiliza a arquitectura nazi como veículo ilustrativo de um passado que sobrevive nas estruturas físicas, Kluge transforma o documentário numa espécie de análise psicotécnica da memória. Para além de outros trabalhos mais ligados à linguagem do documentário de intervenção, já no século XXI, com “Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein, ‘O Capital’” (2008), o realizador germânico expandiu o formato documental para a escala enciclopédica, cruzando entrevistas, arquivos e gráficos para dissecar as teorias de Karl Marx.
Alexander Kluge, como outros na sua geração, deixa-nos um método: o documentário como resistência política contra o esquecimento. A sua câmara e mesa de montagem foram sempre instrumentos onde o facto histórico era apenas o ponto de partida para uma indagação filosófica sobre o destino humano.
O pensamento de Kluge faz parte do KINO-DOC. O seu livro “Pluriverse” está na bibliografia dos nossos cursos. Quando abordamos nas aulas o pré-cinema, partilhamos o seu entendimento de que “O cinema é uma faculdade da imaginação que existia muito antes da invenção da película.”
Recordamos a passagem do cineasta pela Cinemateca Portuguesa em 2021:
https://kino-doc.pt/alexander-kluge-na-cinemateca-portuguesa
E o seu 1.º filme “Brutalidade em Pedra”, realizado com Peter Schamoni:



