FARIA DE ALMEIDA (1934-2025)

Manuel Faria de Almeida faleceu na madrugada do passado domingo. O realizador de “Catembe” tinha 91 anos. Em 2020 tivemos o prazer de conversar com ele, quando exibimos esse histórico filme documental, antes do seu restauro pela Cinemateca Portuguesa, num programa de cinema KINO-DOC na Universidade do Porto intitulado DOC ÍNDEX: Documentários Proibidos.

Recuperamos da folha de sala do referido programa a seguinte apresentação desse documentário:
“É uma singularidade portuguesa o filme com mais cortes impostos por censura. Chama-se “Catembe”. Tinha originalmente a metragem de cerca de 80 minutos, e foi mutilado em 103 cortes, um recorde do Guinness.
Tentativa de retrato do quotidiano de Lourenço Marques (actual Maputo), o filme sobrevivente que apresentamos é uma remontagem de Faria de Almeida sem o material que não passou no crivo da censura. Ainda teve uma exibição privada em 1965 no cinema Império, mas acabou proibido pelas autoridades do Estado Novo, que não apreciaram uma visão antípoda das actualidades propagandísticas sobre Moçambique e restantes colónias. O autor filmara a sua cidade natal sem ocultar anseios da comunidade branca (“Falta de liberdade sentimos sobretudo no aspecto social”, diz uma rapariga), a pobreza dos negros (da qual poucas imagens sobraram), a convivência com as estrangeiras (as “bifas”) ou a mistura racial nos bares da cosmopolita Rua Araújo. “Cenas da mais baixa miséria moral e material”, como referido numa apreciação do Ministério do Interior, que ajudavam a revelar uma cidade colonial desconhecida da maioria dos portugueses da Metrópole, bem representados nos comentários, captados em modo “vérité” na Baixa lisboeta, sobre uma Lourenço Marques no meio do mato, selva de bichos de várias qualidades.
Exibimos, com a gentil autorização do realizador, uma cópia digital sofrível de “Catembe”. A única cópia restaurada do filme é em fita de 35 mm, pertencente ao ANIM.
Após os créditos finais serão visionados alguns cortes que escaparam à destruição levada a cabo pela Agência Geral do Ultramar.”

 

Os manuais de Faria de Almeida desenvolvidos para a RTP nos anos 1980 fazem parte da bibliografia dos cursos KINO-DOC.